Grão de Areia

Maria era uma criança sensível, como qualquer outra garota presa pela inércia da vida. Vida indiscreta, talvez injusta, que lhe fez o favor de tirar, precocemente, seu herói e sua fortaleza. Maria perdera seus pais em um acidente de carro. Os médicos, incrédulos, ainda a citam como a menina do milagre. Desde então, todos os dias das mães, ou dos pais, era para sua avó que iam os desenhos mais carinhosos de uma pequena mão adulta.
Dona Conceição adotou a neta como filha incondicional. Cuidava de ambas com um salário de aposentada, em uma casa humilde e com um futuro nem tão promissor. Muito além do dinheiro, as duas viviam uma cumplicidade sem preço. Eram mãe e filha. O que sobrava dos remédio de pressão alta, Dona Conceição tentava fazer a vontade da pequena Maria. Nem eram tantas. Afinal, com seus dez anos de vida, a macabra força da morte destruiu um coração puro e ingênuo. O que restou foram faíscas de um olhar sem brilho e trapos de uma amargura sem fim.
Naquele tarde, em especial, Maria voltava da escola e, como de costume, admirava o crepúsculo do fim de tarde encobrir a pequena cidade, escura antes da hora. Estava ansiosa pelo amanhã. Era sua única esperança: sempre um novo dia. De longe avistou a pequena casa tombada para a esquerda. Mal pintada, com as paredes descascando, porém, seu lar, abrigo de amor, fonte de força. Abriu o portão e sentiu em suas entranhas o característico ranger da ferrugem. Mas aquele arrepio não era normal. Um calafrio subiu-lhe pelas frágeis pernas. Tentou encarar para dentro das jenelas arreganhadas, porém a escuridão reinava. Como silêncio. Sua avó sempre a esperava bordando na cozinha. Estranhou tudo isso. Maria jogou no chão sua surrada mochila e adentrou um pouco mais, cautelosamente. Como se esperasse por algo. “Vó?”. Silêncio. Sentiu-se ofegante e desesperada. Pensou em sair e pedir ajuda. Mas alguma coisa impulsionou-lhe para mais um passo. Enfim, alcançou a porta da cozinha. Percebeu que sua mão estava trêmula. Um frio na barriga causou repulsa ao metal ríspido. Mais um som passando por todo o corpo e uma cena que nunca mais esquecerá…

One Response

  1. Talvez a injustiça não está só no olhar da Maria, mas também em muitas outras pessoas. Mas elas sabem atuar bem, disfarçam!
    História bonita, talvez muito sensível pra quem já sofre d+!
    Viva aos problemas(leia-se soluções) “comuntários”.
    Otimo post, mas sentimental ao extremo!

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